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domingo, 24 de abril de 2022

Cada zona, um conforto


 

Pensar na zona de conforto e como se livrar dela é algo que sempre me preocupou, e me atrapalhou algumas vezes. Eu ficava preocupada se estava nela sem perceber, e se tinha me acomodado e deixado de lutar, e seguir rumo aos meus propósitos. Afinal você segue evoluindo, estudando, colaborando para o seu amadurecimento e das outras pessoas? É assim que eu me cobrava, quase sempre, e é dessa maneira que a busca pelo equilíbrio entre não se contentar com pouco, e não se perder da própria busca me mantém em alerta.

O fato é que costumo usar esta frase: não fique na zona de conforto, não se acostume com a infelicidade, e com os desprazeres, não deixe as suas vontades e desejos nas mãos dos outros. Principalmente quando falo com mulheres ou pessoas que sofrem algum tipo de insegurança por conta de “aprovações” externas, não é fácil existir sendo além do esperado.

Falar isso constantemente me ensinou que eu precisava aprender a ouvir, pois isso mostra novas perspectivas. Confesso que eu não era boa ouvinte, mas depois que percebi o quanto é possível aprender tenho gostado muito, é uma abertura para um novo mundo, aquele que não é o seu. Quando fazemos isso o nosso mundo diminui, e não de maneira pejorativa, mas de forma realista, o mundo não é o nosso umbigo, a força e energia que carregamos nem sempre está presente nas outras pessoas, e elas possuem percepções que não conhecíamos. Enfim, é riqueza, troca de amor e vida.

Sair da zona de conforto sempre pareceu fácil para mim, eu costumo ser aberta ás experiências, não tenho medo de arriscar e continuar de outra maneira. Mas o que isso tem a ver com sair da zona de conforto? NADA!

Esse tal lugar é muito louco, e dependendo de como você enxerga o mundo você nunca sairá de lá. Poderá praticar grandes aventuras, correr muitas maratonas e viajar o mundo, mas caso não se conheça bem jamais saberá o que é sair da sua zona de conforto, ficará falando pelos quatro cantos do mundo sem conhecer nada de si, e do que te atormenta, ficará tentando suprir as dificuldades em grandes feitos, mas não saberá onde está a simplicidade de se superar, de ser grande, e arriscar ser simples, apesar de tudo.

Cada zona tem um conforto diferente, sair da sua pode ser saber que se é pequeno quando assim se sentir, mas ter coragem para se movimentar, não sentir vergonha de “perder”, pois muitas é você quem ganha, e viver o hoje sem medo. É também ter vontade de chorar e fazer isso, e acreditar que é possível mudar, mesmo que a passos curtos, mas é acima de tudo é saber onde está aquilo que te fortalece e não se esquecer do caminho.

Eu continuo a temer estar na zona de conforto, mas entendo que tem muitas maneiras de estar nela, e formas de não estar também, assim como muitas vezes o pequeno é grande e vice e versa. Podemos admirar alguém que realiza grandes feitos por si, mas aquelas que também não enxergam outra saída e fazem o que está ao seu alcance para não parar, isto é também sair da zona de conforto.

 Não existe o meu certo e o meu errado, existe as pessoas e percepções de cada uma, e a libertação não é viver o que eu acredito, mas se libertar daquilo que te faz mau, e viver o seu BOM, a sua felicidade. Sair da zona de conforto é também esticar a mão a apoiar no caminho que a outra pessoa escolher, ainda que você não concorde, porque sair da minha zona de conforto é também entender que cada pessoa vê e sente a vida a seu modo.

O fato é que ser infeliz não é o caminho para ninguém ainda que pareça "confortável", não é. A dor acontecerá de toda maneira, então que seja para fortalecimento, grandiosidade e liberdade. Não é sobre aceitar tudo de qualquer maneira, não dá para ver os dois lados de tudo, porque a opressão é sempre opressão e gera dor, mas é sobre as limitações que possuímos, e reconhecer que elas existem, principalmente porque plantaram no mundo as inseguranças que aprendemos a conhecer, e que seja possível que todas também conheçam a própria capacidade, força e fé.  

É incrível saber que, sempre que ouço aprendo e me liberto da raiva que sinto por saber o quanto mulheres são oprimidas, e que muitas vezes elas ainda não sabem disso, e daí me recordo que isso não é culpa delas, e não serei eu a condená-las por aquilo que não as faz bem. Viver a perceber esta realidade não é nada confortável, mas é preciso respeitar, e aceitar a diversidade de seres que tanto dizemos que existe.

Para sair deste lugar vamos aprender, assim como os bebês aprendem a andar, um passo de cada vez, um depois do outro. É assim sempre, em cada nova ação, atitude ou decisão. Só não pare, use a energia de quando era criança e queria aprender, e a sabedoria de até aqui, não se anule, continue conquistando.

Quanto a sair da zona de conforto é muito bonito ver quando você faz de tudo para sair da sua, é lindo e inspirador, você inspira pessoas, você é grande, nunca se esqueça disso. Não desista da sua felicidade, do seu sorriso e do que te faz bem. E sempre que algo novo lhe chegar ao coração me chame, por favor, dívida comigo o grande feito, e eu prometo que farei o mesmo. Estarei em alegria, porque o amor é e sempre deveria ser maior que a raiva. Merecemos ser felizes.



Texto dedicado à aquelas que se arriscam. 

Grazy Nazario. 

terça-feira, 30 de novembro de 2021

A lição que fica - Marília Mendonça

 Perto de completar um mês da morte da cantora Marilia Mendonça, ainda é difícil imaginar como tudo aconteceu, o que poderia ter evitado a tragédia, e as fragilidades do viver em si. E fica difícil enxergar a lição de cada história. Foram cinco vidas, muitos planos, e diversos exemplos a seguir.



Há muitas imagens da trajetória de vida da Marilia Mendonça que nos remete a pensar que lição é possível aprender e realizar. A fragilidade evidente nos últimos momentos antes de sua partida é uma das que ainda me toca, o seu sorriso, a sua ultima refeição, tudo nos faz caminhar para reflexões diante da nossa vida. Fico a me perguntar: Como saber sobre o fim?

Quando será a nossa última refeição, a última vez que nos preocuparemos com as contas a pagar, um desejo de consumo, um problema de família... São tantas as agonias cotidianas atreladas a alegrias e realizações. Como separar o bom do ruim, evoluir e aproveitar os momentos com a intensidade que merece?

É interessante aprender isso ainda agora, e saber viver. Não pensar no ultimo dia, mas viver todos como se fossem o "ultimo" da maneira mais sadia que existe. 

Marilia é exemplo de muitas buscas, desde a carreira musical, realizações, pé na estrada, mudanças estéticas, maternidade, vivência na arte e na música. Não tem como dizer, para quem está olhando de fora, que ela não viveu intensamente os seus momentos. Seja em hábitos do dia a dia comum, ou com todo o seu glamour de artista. 

Mas nada nos "avisa" que está chegando o fim, ninguém nos diz: aproveita! Nem a última vez que vamos comer aquela saladinha na hora do almoço, muito menos a última gargalhada ou a última música cantarolada. É só mais um dia.  Sempre parece que a próxima cena virá. E creio que é proposital, ou viveríamos um caos na terra.

 

Além de artista, uma inspiração

 

Falar de Marilia Mendonça hoje transcende a questão musical, é falar de superação, sonhos, luta... A mulher é exemplo até depois que morre. Afinal, quem disse que você não pode ser feliz e realizar seus sonhos sendo mulher?

Eu não sou conhecedora de todas as suas letras, na verdade não sou muito fã de música sertaneja, mas sempre fui fã de mulheres como Marilia, que roubam o palco, a cena, e estremece a coisa toda.

Marilia está além do cenário musical porque não se trata só de música, mas de representatividade feminina, diante da sua vida, e de como é possível viver o que se tem vontade. Mulheres podem traçar um destino, e viver ele como tiver vontade de fazer isso.

 Marilia é especial. A contradição acontece entre a vida e a arte que ela canta e encanta nos palcos, em suas letras ela não tinha vergonha de expor o quanto somos vulneráveis diante das decisões do amor, por exemplo. Marilia não dizia: Deve-se ou não fazer isso ou aquilo, ela só dizia: É isso aqui que acontece, agora olha minha amiga, e veja se vale a pena seguir nessa vibe ou partir para outra!

Suas músicas não catavam como a condição social limita as mulheres, como as tornam inseguras, nem mencionava a criação de tudo isso. Ela ia para a realidade de hoje, o presente, é como um “tapa na cara” vindo daquela amiga que te gosta, quer te ver bem, e vai logo ao ponto. Em suas canções, Marilia diz o que existe do lado da mulher que está sendo traída, abandonada para que o parceiro fique no bar, ela descreve também como bate o coração de uma prostituta abandonada e descriminada por ser quem é, além da infiel, a romântica, entre outras.

 

O lado dela

 

O lado das mulheres representado por Marilia são muitos. Durante muito tempo todo o cenário musical era composto por homens, aos poucos as mulheres foram ocupando espaço, e cantando seus sentimentos, o que de fato sentia por si mesma. Mas quando falamos de música sertaneja, a demora foi maior, poucas mulheres conseguiram se introduzir e se manter, muito menos se consolidar. Não existia “simpatia” por aquilo que mulheres produziam, mas aos poucos esta realidade foi mudando.

Existe outro lado, mulheres sofrendo, pessoas que sentem e querem colocar este sentimento para fora, e até então não foram ensinadas a fazer isso. A tal “sofrência” também serviria para se libertar de algo ruim, a tal cantoria deixava as meninas mais calmas, elas se viam ali, não era sobre outras pessoas, mas sobre elas. E assim, como quem não quer nada, a vida de Marilia também não serviria de inspiração para perceber o quanto você merece por ser quem é. São possibilidades, opções que aprendemos a perceber a partir de suas mudanças e buscas, afinal, as suas transformações foram muitas, mas a sua essência permanecia ali.  

As suas letras são compostas no presente, Marilia nos faz sentir que vale a pena ser feliz, fazer o que sente vontade, ainda que, depois a gente se arrependa, e que veja ele “trocar de calçada”, ou que fique cantarolando o problema de “não casar”. Fato é que chegará o dia em que ele te mandará mensagens e você estará em turnê de shows com as amigas!  O que vale é a canção, se divertir, e ser feliz.


Fonte: Internet.  


A Partida

Infelizmente a tristeza de sua perda ainda é maior que seus ensinamentos, mas tenho certeza de que com o tempo isso irá melhorar. O simbolismo de sua partida feliz da vida, esperançosa, cuidando da voz, da saúde, acreditando no que ela merecia, sendo intensa com a vida que escolheu. Com o tempo daremos valor a estes sorrisos honestos, mesmo quando ainda não forem os últimos, nos desculparemos com as amigas, valorizaremos as emoções de estar com quem amamos, cantaremos o amor, vivendo cada pedaço que nos é possível.

Marilia voou e por lá ficou, a sua falta será tanta que chega a apertar o peito e encurtar as palavras. Ficaremos a imaginar por que tão cedo, e a torcer para que ela tenha tocado o coração de outras mulheres, que se inspirem e que tenham entendido a sua mensagem. A arte é um canto eterno.


Texto: Grazy Nazario

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