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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

O Rei da Casa - Crônica

Milla abre a porta empolgada.

- Chegou na hora do brinde! – Ela sorri. – Eu sei que não podemos nos abraçar, mas como é bom te ver.

- Oi meninas! – Responde Isadora com certo desanimo. – Gente, podem abaixar um pouco o som? – Ela senta no sofá.  

Bella, Flor e Milla arregalam os olhos:

- Nossa, que ânimo em plena sexta-feira. – Comenta Flor.

- Eu sei... – Isadora suspira. – Tive um plantão daqueles. Esta covid19 quando não mata de um jeito, ferra de outro.

- Imagino, amiga. Olha estávamos todas de máscara, só tiramos agora para o brinde. Não dá pra beber de máscara. – Disse Milla enquanto riu. 

- Passei em casa pra tomar banho, não queria vir direto do hospital, mesmo já infectada e curada preciso evitar transmitir os vírus de outra forma.

- Foi bacana da sua parte vir, mesmo que um pouquinho. – Diz Bella. – Agora que as coisas estão mais ou menos voltando ao normal... - Fase laranja, quase amarela. - Ela ri sem jeito. - Era importante ter este momento, não comemoramos o aniversário de ninguém.

- Eu também estava com saudades. – Diz Isadora. – Mas passei em casa e me aborreci. É muito louco precisar brigar por certas coisas.

- O que aconteceu? -  Pergunta Milla. – Segura este copo, relaxa e nos conte tudo!

- É o meu filho.

- O que tem ele? – Pergunta Bella.

- Ele não quer colaborar com nada. Antes eu já fazia tudo, mas agora a minha sobrinha esta passando uns dias em casa, e pedi pra ela fazer algumas coisas.

- E o que tem isso? – Rebateu Flor. – Estranho precisar pedir isso para o seu filho, só mora vocês dois na mesma casa, pensei que ele fazia o básico.

- Muito chato fazer coisas de casa! – Milla revira os olhos. – Ainda bem que moro com minha mãe.

- Isto não diminui em nada sua responsabilidade, minha filha! – Disse Bella. – Se você faz a sua mãe de empregada ta igual o filho da Isadora, só que pior, porque é adulta!  

- Não acredito que estou ouvindo isso! – Flor bateu o copo na mesa e foi até a cozinha. Voltou com uma latinha de cerveja na mão.  – Pelo amor de Deus, em pleno século XXI você ta sofrendo porque seu filho não quer ajudar, ou melhor, fazer a parte dele nos afazeres domésticos. É sério isso?

Isadora fica sem graça, e olha para as amigas.

- Você nunca ensinou isso a ele? Prefiro não falar sobre a Milla, porque se fizer isso serei obrigada a brigar com ela!

- Calma, gente! – Milla riu. – Eu pago uma diarista super bacana, e ajudo também em casa. Só disse que era chato.

- Disso todo mundo sabe Milla. – Responde Bella. – Mas a gente sabe como você não é fã de fazer muitas coisas.

- E quem é? – Responde Milla irritada.

- Eu! – Diz Isadora prontamente. – Eu sempre fiz tudo sozinha. Nunca pedi nada pro meu filho, dava pra eu fazer eu fazia. E ele é homem, vocês sabem que eles não têm muito jeito pra fazer coisas de casa.

- Pelo amor, que papo mais anos 50! AFFFFFF – Disse Flor e revirou os olhos. – Meus ouvidos estão sangrando!

- Não exagera com a Militância Flor! – Isadora virou um copo cheio de cerveja. – To ficando mais brava com vocês do que com meu filho.

- A questão é que é mais fácil fazer do que ensinar. Ok.  Mas e se o seu filho fosse uma menina, você ensinaria ou não? – Pergunta Bella.

- Mas ai não tem comparação né, gente! – Insiste Milla. – A mãe da gente já manda a gente fazer tudo desde pequena. Acho que por isso odeio. – Milla gargalha.  

- Como que não tem comparação! – Flor se exalta. – Você aprendeu desde pequena, seria a mesma coisa caso fosse um menino.

- Isso é o que a gente queria! – diz Milla.

- Sim, por isso mesmo temos que fazer. Eu não tenho filhos, mas isto está claro pra mim. Precisamos passar valores diferentes do que tivemos para meninos e meninas, ou nada vai mudar.  

- Você odiar fazer estes serviços é só mais um exemplo de que isso não tem nada a ver com gênero. – Insiste Bella.

- Mas é que eu sempre trabalhei e estudei... – Resmunga Milla.

- Milla, se for assim ninguém tem tempo de fazer nada, mas alguém precisa fazer! – Insiste Flor.

- Ah gente, mas agora ele já ta moço. – Resmunga Isadora. – O problema foi esta pandemia, eu levava muito bem as coisas porque era só nós dois. Agora parou a escola e todas as coisas possíveis, e eu to trabalhando feito uma louca no hospital...

- Não é possível, você quer viver como se o seu filho fosse o rei da casa! – Flor se irrita. – Eu não agüento manter um bom humor com uma fala dessas.

- Calma flor! – Pede Bela. – Falar assim não adianta nada, só deixa ela mais nervosa.

- Nossa gente, pra que eu fui comentar do meu cansaço. – Isadora respira fundo. – Só queria relaxar e aproveitar que amanhã é minha folga.

Isadora levanta a vai ao banheiro.

- Caramba meninas, vocês pegaram pesado hoje hein! -  Reclama Milla e vai atrás da amiga no banheiro.

Bella e Flor se olham.

- Nossa, ainda não me acalmei. Eu não me conformo que a pessoa queira ser empregada, por isso tem uma par de boizinho se achando pra cima da mulherada. – Suspira Flor. – Querendo tratar mulher como empregada!

- Eu sei Flor. Mas ela não enxerga assim, fica calma, não precisa brigar também, né. – Diz Bella.

- Dá vontade é de tacar foco nesta macharada folgada!

- Mas ele tem 17 anos!

- Sim, e logo terá 20, e 21, 24, 32.... E vai neste ritmo, “alguém faz por mim”.

- Calma, pode ter salvação.

Flor suspira.

- Eu acho que estou estressada mesmo! – Ela ri. – Muito tempo de quarentena e descobrimos que nossa amiga está se fazendo de escrava e nem enxerga, é problema viu.

Milla e Isadora voltam.

- Meninas, eu vou embora. – Diz Isadora com a voz ligeiramente mais calma.

- Não precisa ir Isadora. - Diz Bella. – Pegamos pesado. Vamos ficar de boa, não é Flor? – Bella olha de canto de olho para a amiga.

- Sim. – Responde Flor a contragosto. – Desculpa, senta ai e fica de boa.

Isadora senta novamente.

Flor bebe uns goles de cerveja, observando a amiga.

- Permita-me dizer mais uma coisa? – Flor sorri. – Mesmo se você não permitir eu vou dizer. - Ela afirma em tom descontraído. 

- E a novidade, Flor? – Diz Milla.

- É que assim.... Precisamos mudar está visão de que as mulheres precisam fazer tudo sozinhas. Por que temos que carregar o mundo nas costas? Reclamamos na internet sobre as atitudes dos homens, e não exigimos que nossos filhos arrumem a cama?

- Você nem tem filho, Flor! – Ironiza Milla.

- Eu sei Milla. Mas você entende o que eu estou falando? – Flor passa as mãos nos cabelos. – O mundo vive uma pandemia louca, muitas pessoas morreram e continuam a morrer. A nossa amiga trabalha na linha de frente contra a doença, chega cansada, e não tem o apoio da própria família. O que ela estaria passando como valores ao filho?

- Isso é verdade. – Diz Bella. – E se algo acontece com ela?

- Sim, eu fiquei doente. E alguém foi pra minha casa, o meu filho ficou perdido.

- Ele não é mais uma criança, se algo acontecer com você, ele precisa ter noção do que é preciso fazer, em outros sentidos também. – Completa Flor com a voz mansa. – Você pode fazer tudo, se assim escolher. – Quem sou eu pra dizer o que você deve fazer?

- Uma feminista do caraio! – Riu Milla. – Mas isso é verdade.

- Eu sei, mas não é fácil mudar hábitos. - Lamenta Isadora. 

- Isso não é mesmo Isadora. Mas não é impossível. – Bella abre um sorriso. – E não é só por você, mas por ele também.

- Isso é verdade. E também o que você vai deixar para o mundo. – Mães super protetoras são péssimas.

Isadora torce o nariz e a boca.

- Mas você não se contenta neh Flor!

- Jamais! – Ela sorri. – Pra mudar precisa fazer diferente. Eu nunca imaginei que veria aquele menino tão lindo sendo acostumado assim, nessa vida mansa.

- É a idade também. – Ameniza Bella. – Os hormônios e tals.

Milla riu.

- Na minha época os hormônios faziam outra coisa.

Todas riram.

- Posso perguntar mais uma coisa?

- Ai meu deussssss – Grita Isadora simulando desespero. – Eu já entendi sobre os direitos iguais e tudo mais, você tem toda razão, Flor! Agora deixa eu tomar essa cervejinha e ouvir este som gostoso porque eu quero relaxar.

- Ah sim. – Flor riu. – Relaxa sim, e depois vamos sortear quem vai lavar a minha louça lá em casa!

Todas olharam Flor.

- Ta doida!?

- Não! Kkkkkkkk – É que como eu conseguir fazer você dividir o seu serviço de casa, todas vocês podem dividir comigo!


                                                                                                                                     FIM


Texto: Grazy Nazario. 


Créditos da imagem: Site "Pra ser charmosa".

Para conhecer mais sobre as meninas Isadora, Milla, Flor e Bella, ou seja, as "Mulheres de Poder". 😉

Link:  https://mulheressdepoder.blogspot.com/

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Estante Virtual - Palestras e Oficinas

Palestras e Oficinas  A Nova Mulher - Realidade em construção


As palestras ministradas pela autora Grazy Nazario, traz estudos e reflexões quanto ao novo papel da mulher no seculo XXI, frente uma realidade em constante transformação, e transição de busca de direitos e conservação de conceitos adquiridos.

O projeto A Nova mulher: Realidade em construção é composto por oficinas, palestras e grupos de estudos. 

O material a ser trabalhado em suas apresentações considera o público, idade, prioridade do território e realidade escolar. A proposta transita entre a introdução ao feminismo, busca pela igualdade de gênero, além de reconhecimento dos espaços e ocupação feminina como direito a todsx.





Para contratar palestras e oficinas entrar em contato nas redes sociais ou via 
e-mail: Graziellenazario10@hotmail.com


segunda-feira, 28 de maio de 2018

Da série de Contos - UM BEIJO BASTA?




                Acho que vai dar pra sair no intervalo, hoje é quarta e as últimas aulas eu não preciso mais de nota. Mas dai vai constar a falta e o que vou dizer pra minha mãe. Droga, tenho que arranjar um jeito.
- Malu!
                Posso entrar na aula, ficar uns 15 minutos e dizer que estou passando mal. Com um cólica terrível e pedir pra sair. Vou ter que ser bem convincente, porque se não a Dona Lourdes não vai cair na história.
- Malu!!
                Mas o que eu vou fazer o que até o horário de voltar pra casa. Se usar meu passe pra ir até o centro vou ter que ter dinheiro pra voltar e eu gastei todo meu dinheiro naquele show. Não vai dar pra ir no centro. Preciso saber onde vou, não posso ficar vagando na rua.
- MARIA LUIZA, TA SURDA!!!
- Nossa mãe, pra que gritar assim, quase morri de susto!
- Se não estivesse com esse treco enfiado nos ouvidos tinha me ouvido na primeira vez que chamei; Apura menina, o ônibus vai passar em 10 minutos;
- Sei mãe, já tô saindo!
- E Maria Luiza, tira essa coisa dos ouvidos que tu vai ficar surda pra sempre!!
- Ok mãe, relaxa;
                Droga mesmo, sempre essa gritaria de manhã. Meu irmão ta lá dormindo ainda e ela não vai gritar com ele. Sempre de boa no sofá enquanto eu tenho que ficar ajudando em tudo. Inferno ser mulher mesmo.
                Meus Deus o ônibus parado me esperando. Que merda. Comecei bem o dia, todo mundo olhando pra mim enquanto entro. Vergonha alheia. Esse moleque sentado do meu lado fungando o nariz toda hora, só o que faltava me passar alguma coisa. Que ódio, tô muito irritada e nervosa e nem estou naqueles dias. Tenho que arranjar um jeito de escapar antes da volta pra casa depois da natação. Não tenho coragem de olhar na cara dela depois de ontem.
                Só de pensar minha garganta tranca e me dá esse vazio no estomago. Porque eu tinha que ter feito aquilo. Porque fui tão idiota. Nossa que calor, só de pensar já estou ficando vermelha de vergonha. Meu deus eu podia ter feito qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo, menos aquilo. Como fui idiota. Maria Luiza sua retardada, porque não empurrou, fugiu ou fez qualquer outra coisa. Fico lá parada com cara de tacho. Depois ficou toda vermelha como um pimentão de vergonha. Lesada.
                Tenho que arranjar um jeito, tenho que fugir, não vou conseguir olhar na cara dela. Mas também pode ser que ela esteja como eu. Pode até ser que ela não vá. Isso seria ótimo, mas não tenho como saber até encontrar ou não ela lá. Será que arrisco? Posso dar uma espiada antes? Se ela estiver lá me tranco no banheiro de cima. É isso, vou fazer isso mesmo.
                Nossa já estamos no colégio. Olha só aquelas doidas se exibindo pro pessoal do futebol. Vou lá com elas.
- Oi pessoal, Oi Adri, Fe, Rafa!
- Oi Malu, que perfume é esse hein??
- Perfume normal de todo dia Fe! O que tem?
- Nada não, só tá bem mais forte hoje!
- Quem é o gatinho Malu?
- Que gatinho, ficou louca Adri, não tem gatinho nenhum!!
- Relaxa “migs”, pode falar pra gente!
- Já disse que não tem ninguém Rafa, bora pra aula que bateu o sinal;
- Huuuummm, nervosinha é!!
                Como é que eu ando ainda com essas lesadas. Mas será que meu perfume ta muito forte mesmo? Será que exagerei? Mais uma nóia pra minha cabeça. Essas primeiras aulas vão ser um porre. Odeio revisão pós provas. Já estudamos tudo isso e fizemos as provas. Se fomos mal não vai ter como voltar no tempo e refazer a prova.
                Já sei como vou fazer, vou entrar pela porta da trás da piscina, aquela que tem um vidro. De lá vou conseguir ver toda a piscina e ver se ela está lá. Meu deus cada vez que olho aquele relógio atrás da professora minha barriga da um embrulho. Porque as horas estão passando tão rápido hoje. Me lembro de olhar fixamente para aquele relógio e até achar que tinha o poder de congelar o tempo de tão devagar que aquele ponteiro andava. Porque eu estou assim hoje? Ela não vai estar lá, não preciso me preocupar. Ela deve estar bem pior que eu, com muito mais vergonha.
- Vamos Malu?
- Vamos aonde?
- Ué doida, já bateu o sinal do intervalo, vai ficar na sala?
- Vou sim Fe, não to afim de descer não.
- É uma CDF mesmo né, beijinho então!
                Droga, droga, droga. Já foi meio período de aula, daqui a pouco a aula acaba e eu nessa agonia. Maria Luiza pensa, ela não vai estar lá. Ela não teria essa coragem. Afinal foi ela quem fez tudo. Foi tudo culpa dela. Ela deve estar querendo se enfiar num buraco. Imagina só. Merda, não imagina, não quero ficar relembrando isso. Toda vez que lembro me da esse calor, já devo estar ficando vermelha. Mas isso não sai da minha cabeça um instante, que inferno de vida. Como ela teve coragem de fazer aquilo, porque ela fez aquilo. Se encontrar ela vou perguntar o que ela ta pensando em fazer essas coisas!
                Caramba, o sinal do final da aula. Tenho que correr pra me trocar e dar a volta em toda a piscina pra chegar na porta de trás.
- Tchau meninas, tenho que ir pra natação.
- Nossa Malu, que pressa é essa?
- Nada não, tenho que desenrolar umas coisas antes Adri, beijo pra todas!
                Consegui, deu tempo de me trocar a dar a volta nas piscina. Ué, parece que ela não veio mesmo. Não to vendo em lugar nenhum aquela toca verde brilhante. Sabia que ela não viria, com certeza ela deve estar com muito mais vergonha que eu por ter feito aquilo. Nossa até consigo respirar direito agora, vou até dar uma relaxada na água quente antes da aula. Essa piscina é muito boa, com essa água bem quentinha.
- Oi Malu!
                Credooo, de onde saiu essa criatura. Meu deus que toca tosca rosa é essa.
- Oi.. Eduarda.
- Eduarda? Que é isso, ta tudo bem?
                Mas que cara de pau! Como ela consegue?
- To de boa “Duda”!
- Hum, sei! Parece até que viu um fantasma!
- Deixa de ser ridícula!
- Nossa calma, pra que essa agressividade?
- Desculpa, não é nada não! Vamos fazer a aula, a professora está chamando.
                Que droga, como ela consegue. Parece que não aconteceu nada. Será que sou eu que estou viajando. Não. Ela que é muito cara de pau mesmo. Mas mesmo assim, ela me olhou como se não tivesse acontecido nada. E porque eu não consegui olhar no olho dela? Porque tinha que ficar olhando a boca dela? De novo fui retardada. Porque eu não agi como ela? O que será que ela ta pensando agora? Eu fiquei olhando o tempo todo a boca dela, será que ela pensou que eu quero repetir?
                Nem foi um beijo tão bom assim! Ta certo, foi melhor que todos os outros beijos que já recebi. Ai que droga, o beijo foi muito bom! A boca dela era macia, molhada e com gosto de hortelã. Meu deus tenho que parar de pensar nisso. Que calor que ta me dando. Essa água parece estar muito mais quente que o normal. Assim que terminar a aula vou sair correndo pra tomar banho me trocar e ir embora.
- Malu, me espera. Vou com você!
- Comigo? Aonde?
- Ué Malu, tomar banho pra gente ir embora?
- Ah... tá...
                Meu deus e agora, o que eu vou fazer. Já to ficando enjoada. Esse nó na minha garganta, esse frio na barriga. Tudo junto com esse calor. Vou usar o ultimo chuveiro, ela sempre escolho o segundo, dai fico longe.
- Malu, vem nesse chuveiro do meu lado, esses são os melhores. Esse ai não esquenta direito.
                Ah caraca. E isso agora, ela testou todos os chuveiros?
- OK
- Malu, o que foi? Você ta... muito estranha.
- Não foi nada!
- O que? Você não gostou do meu beijo?
                Meu deus, que pergunta é essa? Como ela consegue falar assim normalmente?
- Eu... ham.. não.. sim... quer dizer...
- Você não sabe se gostou do beijo Malu?
- Sei sim... gostei...
                Nossa porque ela ta me perguntando essas coisas. Porque to ficando assim tão quente. Quero me enfiar nesse ralo junto com a agua escorrendo. Ela não para de olhar nos meus olhos, eu não sei mas nem pra onde olho. Não consigo olhar nos olhos dela. Só consigo enxergar a boca dela. Estamos nuas no banheiro tomando banho e ela fica me fazendo essas perguntas. Meu deus quero sumir, fugir não sei. Mas não consigo me mexer.
- Então você gostou do meu beijo. Que bom, também gostei do seu, da sua boca!       
                Caraca isso é coisa que se diga, nessa situação ainda.
- Er.. Obrigada.. Só que..
- Só que você não sabe se gosta de meninos ou de meninas? É isso Malu?
- Hum.. Eh.. Não sei...
                Meu deus porque ela ta me segurando pela cintura? Porque ta me olhando assim? Porque essa boca na minha de novo? Porque esse beijo tão bom? Porque eu não reajo, não empurro ela? Esse gosto de hortelã de novo, essa boca macia. Como o beijo dela é bom, meu corpo inteiro ta reagindo a esse beijo. Não consigo me me mexer, só acompanho o beijo dela e meu corpo cola no dela. Que pele macia que ela tem, consigo sentir o cheiro do perfume dela. Eu não sei se gosto de meninos ou de meninas. Mas eu sei que gosto dela.





Texto: Clara C. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Geração Mudança - Feminismo na Escola

A cada dia surgem novos grupos exigindo mudança e respeito quanto aos direitos direitos das mulheres. Estão em todos os cantos, de idades diversas e classes sociais, e aos poucos se dão conta de que são os responsáveis pelas transformações sociais que interferem no cotidiano de cada um. 

A EMEF Sérgio Milliet localizada na zona leste de São Paulo é mais uma das unidades escolares que fala abertamente sobre gênero e sexualidade. O assunto esta na boca de meninas e meninos, a cada momento uma nova discussão, construções e desconstruções de conceitos e culturas que a cada dia se transformam, e nos toca como algo realmente importante.

Em visita a escola as estudantes nos apresentaram o assunto que esta mexendo na rotina da escola, o feminismo é a pauta. A ideia de igualdade torneia as meninas, e para orgulho de professores e direção, a iniciativa partiu de um trabalho escolar. O TCA (Trabalho Colaborativo Autoral), este trabalho faz parte da grade do ciclo autoral das escolas Municipais de São Paulo. Os alunos escolhem os temas a ser trabalhado e pesquisado, uma espécie de prévia para o TCC (Trabalho de conclusão de Curso) que se tem conhecimento no ensino superior. Esta é uma forma de proporcionar aos estudantes interesse e resultados a partir de pesquisas, e despertar o interesse em assuntos de seu cotidiano.


O grupo do TCA da EMEF Sérgio Milliet é formado por cerca de 15 garotas, que se sentem a vontade para iniciar assuntos relacionado ao tema. “Não podíamos usar nenhuma roupa que tínhamos vontade, fosse frio ou calor, nada era permitido para as meninas”, esta foi a citação de uma das participantes, e segundo o restante do grupo, foi a partir daí o interesse em falar sobre o assunto.  
Em outros relatos as reclamações são desde as mais simples às mais complexas, sobre comportamento, expressões, até aborto, e atitudes que antes lhes pareciam normais, agora são insustentáveis. O assédio dos meninos é um assunto muito mencionado pelas garotas, e também foi algo que impulsionou o grupo, a força se tornou tão real a ponto de quase causar a expulsão de um de seus colegas de sala. Diante das alegações de assédio e toque ao corpo das adolescentes, além das famosas “cantadas”, e tentativas de beijos forçados, a direção se sentiu na obrigação de tomar uma atitude.

Algumas declarações são realmente preocupantes, meio a palavras inflamadas: “Ele não respeita ninguém”, disseram elas em coro. “Simplesmente diz que vai te beijar, e, e nos deixa com medo”. “Um dia cercamos ele no pátio, todas nós juntas, ele ficou pálido. Dissemos a ele que aquilo não estava certo, e que ele não poderia fazer isso com ninguém. Exigimos que ele fosse expulso da escola.”

Quanto a este episódio foi relatado que o menino pediu para ficar, e disse que mudaria a atitude. O grupo entendeu que se ele apenas saísse da escola nada mudaria, e ele continuaria a fazer isso em outras escolas, e com outras meninas. Se estava pedindo uma chance, mostrariam a ele como deveria respeitar mulheres e garotas.

Fatos como estes deixa nítido a importância de abordar estes assuntos, intervir com propriedades de leis e direitos. O emponderamento das meninas é evidente, a esperança em mudanças, e o saber que qualquer mudança se inicia em atitudes que rejeitam o senso comum, que dentre muitas coisas implica em não aceitar atitudes como esta.  

Outro caso contado com empolgação, foi sobre o garoto que usava uma camiseta com frases ofensivas as mulheres. Ele foi parado no pátio, e exigido que a ofensa escrita em sua camiseta fosse retirada. “Se não podíamos usar uma blusinha de calor, como ele poderia usar uma camiseta com frases que considerava as mulheres um mero objeto”. Isto estava errado! Afirmou a estudante.
Diante de algo tão consistente o colega voltou para casa com sua blusa de frio cobrindo a camiseta. Mas a intervenção foi para que ele não a use novamente, mais que isso, entenda que combater o machismo não é questão de opinião, mas de respeito ao outro, respeito ao limite do corpo e da vida de outra pessoa.  

As meninas já fizeram algumas intervenções na escola, apresentações no pátio para os colegas, e conversas nas salas de aula, além de pesquisas para o projeto em si. Mas a maior vitória para o grupo até o momento é o fato de terem conquistado o direito de usar blusa de calor e bermuda nos dias mais quentes. Pode parecer pouco, mas é realmente revigorante sentir que fizeram parte de uma mudança, a alegria é simplesmente encantadora.

 O tema é amplo, envolve além de questões machistas a ordem dos direitos humanos, e questões do ECA, as integrantes se dizem a cada dia mais interessadas e motivadas, e as pesquisas e produção dos textos respaldam as atitudes em torno das questões.

Além dos muros da escola

“Na minha casa tudo está diferente”. Esta fala é de todas as meninas. “Depois que começamos a falar sobre os direitos das mulheres, começamos a ver as coisas de outro jeito”. Disse Micaeli com o apoio das colegas. Este comentário foi sem duvida o que gerou mais confusão durante a escuta, todas queriam falar ao mesmo tempo, como se um “mundo novo” se abrisse, e novas perspectivas fossem possíveis, e hoje todas elas tem certeza disso.  

“Eu questiono as pessoas, por que não concordo quando falam que algumas mulheres merecem ser estuprada por seu comportamento”. “Ninguém merece ser estuprada!” Afirma Sara que contribuiu para escrever um texto do TCA. “Eu defendo os nossos direitos, não podem culpar a mulher por tudo”.

As garotas Naiara, Karolina, Ana Camila, Bianca, Evelyn e Ariane falaram de alguns conflitos que estão acontecendo com mais frequência em casa, como assuntos relacionados as tarefas domésticas e de como isto tem sido problematizado. A Júlia contou como o futebol que tanto gosta de jogar passou a ser aceito de forma mais tranquila pela família, mesmo ainda sendo alvo de muito preconceito por parte dos meninos. Entre outras falas a Vitória, Beatriz, Amanda, Giovanna Alves, Samira, Giovanna Viana e Carine falaram também das questões de responsabilidades sexuais, e como isto ainda é um grande tabu quando se fala da sexualidade das meninas, é ainda algo “proibido”.

Seja na fala das mais tímidas ou das mais expressivas, cada uma a sua maneira se comporta como um grande caldeirão de ideias e abertura ao conhecimento, naturalmente prontas para aprender e ensinar com garra e vitalidade.  A finalidade do trabalho faz jus ao que se propõe, transformar a vida cotidiana através de pesquisas e estudos, e conscientizar os estudantes de que a sociedade somos cada um de nós.

As protagonistas do TCA Feminismo da Escola Sérgio Milliet parecem perceber e nos mostrar que a escola é muito mais que conteúdos a aprender, é troca, pratica e fonte de conhecimentos múltiplos, é o berço da sociedade e suas funções reais.

A professora Mariana, orientadora da turma, finalizou a visita com uma fala emocionante ao mencionar a importância da dedicação das meninas, e como é gratificante participar deste projeto que esta além dos muros da escola, esta na transformação de professores e alunos, e em viver a esperança enquanto colhe a cada dia seus resultados.





Texto por: Grazy Nazario. 



quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Não existe idade para a luta, existem motivos

Supostamente na idade de “aceitar” o mundo como está e pouco dizer ou interferir, adolescentes usam o espaço escolar para além do raso significado determinado como um local de conteúdos a aprender. O espaço social e de educação formal é também usado como um ambiente de troca, de compreensão e de transformação social dentro e fora da escola.
Estas são as pessoas que também cuidarão deste planeta no futuro. Nada está perdido!

O grupo de estudantes da EMEF Eduardo Prado inicialmente poderia ser chamado de Grêmio. Seria normal dizer que jovens da escola que participam das atividades do conselho, opinam quanto as prioridades da escola, e representam as vontades dos seus colegas, seja denominado grêmio estudantil. No entanto, o grupo de predominância feminina dessa unidade escolar, se autointitula um grupo feminista, não foram escolhidas através de votos, mas se sentiram eleitas por necessidades maiores e de percepção geral. Além de praticar as atividades que também poderiam ser de responsabilidade de um grêmio estudantil, enfatizam a luta por igualdade entre os gêneros, e problematizam questões essenciais para que a convivência escolar aconteça de forma saudável.

O grupo principal é formado por cerca de trinta meninas, este é um numero expressivo diante da propriedade e do compromisso com que a turma trabalha as questões. A autonomia é visível desde a construção do grupo em divisões de tarefas e determinações gerais, até a fala de cada uma. É claro que existe a colaboração de um “adulto”, a presença e apoio do corpo docente é essencial quando falamos de espaços escolares. Neste caso, o professor Eduardo de língua portuguesa é o mediador e apoiador do projeto que carrega o nome MOVIFEMI, Movimento Feminista na Escola.  

Entre as motivações para a criação do grupo estão algumas situações incomodas, e que muitas delas notaram parecer irreversíveis, e dignas de intervenções. Segundo conta uma das meninas, a primeira batalha vencida foi o uso da calça legging durante a educação física. Embora pareça algo banal ou simples de resolver, a ideia de que elas não deveriam usar a peça para não gerar “desconforto” para os meninos era, no mínimo, ridícula e sem cabimento. Não existia desrespeito em usar uma roupa que facilita as atividades físicas, existe desrespeito quando não se pode fazer isso por que as outras pessoas não aprenderam a ter limites diante do corpo do outro. Naquele instante foi percebida uma troca de valores, antes não notada, e a partir daquilo nascia um grupo que se incomodaria com outras atitudes semelhantes.

Conversando com as meninas nota-se a liderança natural que elas possuem sobre as ideias e conceitos feministas, mas não apenas isso, também fica claro a preocupação com as minorias diante de qualquer natureza como racismo, homofobia, xenofobia, entre outras questões preconceituosas. A partir deste viés, o grupo se mostra eclético em personalidades, o que garante abordagens diferentes respeitando a personalidade de cada garota, e levando em consideração como cada pessoa se enxerga e encara a própria sexualidade.

Os assuntos discutidos pelo grupo são diversos, vão desde falta de produtos específicos para as meninas como absorventes, passando por roupas, comportamento e condutas machistas em geral. O ideal é que seja algo do cotidiano, acontecendo e atrapalhando de algum modo a  vida ou a liberdade delas, seja no espaço escolar, na internet, televisão, ou na rua, o importante é se incomodar com isso, e buscar soluções.


As duvidas são consideradas algo natural e enriquecedor no grupo, esta é outra característica forte nas meninas do MOVIFEMI, varias questões são levantadas pelas colegas e problematizadas primeiramente entre o grupo, e muitas vezes compartilhadas em sala de aula. O importante é não deixar dúvidas, buscar fontes de pesquisas, e neste momento, mais uma vez o professor é um aliado e contribuinte.




Um dos trabalhos realizados pelo grupo


A organização é outro componente que acrescenta qualidade, o grupo MOVIFEMI se divide para falar com as turmas, a liderança é algo distante, pois o grupo se transparece em respeito mutuo de ideias e conceitos. Uma das integrantes é presidente do conselho da escola, e a sua fala transborda segurança quanto aos próprios direitos. A mesma percepção se espalha pelas outras integrantes, umas mais tímidas, outras mais falantes, mas todas em prol do mesmo objetivo.
As atividades não param em discursos ou reuniões no conselho da escola, as meninas criam cartazes sobre o tema, poesias, textos, entre outros, além de participarem das redes sociais  também fazem intercambio em outras Unidades Escolares, afinal o assunto não é novidade e esta a cada dia mais em alta. Produziram um manifesto (que estará disponível no final da matéria), assim como os endereços eletrônicos.

As meninas Beatriz Cavalcanti, Beatriz dos Santos, Brenda, Bruna, Gabrielly, Giovanna, Isabela, Larissa, Marcela, Mayza, Renata, Poliana, e Thais, Junto ao professor Eduardo estiveram durante o nosso bate papo que não apenas rendeu esta matéria, mas também uma gigantesca troca de conhecimento. O grupo não se encerra entre elas, existem outras pessoas da escola e de períodos diferentes que também são engajadas, e que se reúnem diante de qualquer necessidade, inclusive com a participação de meninos (mesmo em minoria), a voz e ouvido dos meninos é também considerado importante para melhores resultados.

Diante de atitudes como a do MOVIFEMI fica mais perto do real acreditar na mudança das pessoas e nas melhorias da humanidade, toda força coletiva possui melhores resultados, e tudo aquilo que é feito com qualidade e compromisso alcança os seus objetivos. Muitas meninas estão no seu ultimo ano na EMEF Eduardo Prado, mas já se preocupam com a continuação do MOVIFEMI portas adentro da escola, pois já sabem das dificuldades de se manter conquistas diante de uma verdade cultural diferente, a luta acontece todos os dias para alcançar e manter direitos.

Esta claro que a escola não é apenas um espaço de conteúdos, mas de grandes aprendizados sociais, está nela a base de qualquer construção social, é dentro dos muros das escolas que aquilo que conhecemos fora se inicia. Que a semente da igualdade se espalhe, a cada dia é preciso maior consciência diante dessa realidade. 

Texto: Grazy Nazario.
MTB. 74588/SP

Manifesto elaborado pelo MOVIFEMI

Manifesto em defesa de uma escola sem preconceito e discriminação

Mediante reunião realizada no inicio de abril de 2015 com pauta relacionada a situações de preconceitos, observados tanto dentro quanto fora da escola, verificou-se a necessidade de construir espaços de debates, formação e organização de combate aos diferentes preconceitos e discriminações decorrentes em nossa sociedade.

1 – Não tolerar nenhum tipo de opressão relacionada a discriminações raciais, homofóbicas e machistas no interior da escola. Com orientações especificas de como atuar em situações do tipo.

2- Estabelecer um coletivo de formação permanente visando conscientizar o coletivo da escola com o objetivo de superar as situações de discriminação.

3 – Encaminhar debates para que esta pauta integre todos os documentos oficiais da escola: Projeto Político Pedagógico e Regras de Convivência.

São Paulo, 28 de Maio de 2015.




*A unidade escolar EMEF Eduardo Prado é uma escola Municipal de São Paulo, pertence ao colegiado da Diretoria Regional de Educação Itaquera. Agradecimentos ao Diretor da Escola Sidney Aparecido da Silva, e ao Professor Eduardo que gentilmente cederam o espaço e nos convidaram a conhecer o grupo, e também as meninas que contribuíram com seus relatos.






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