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segunda-feira, 8 de março de 2021

8 de Março - Um pouco sobre mulheres

 Dia 8 de Março comemora-se o dia internacional da Mulher. Até ai nenhum segredo. Por certo tempo se travou uma "briga" entre parecer hipócrita parabenizar as mulheres e presenteá-las, ou usar este dia para pensar sobre o que de fato está errado a ponto de ser preciso "comemorar" e falar sobre a importância e representatividade desta data.

Com o passar dos anos, e ao passo que mais mulheres passaram a estudar e perceber que de fato nenhum direito direcionado a elas é de "graça" e que precisamos de esforços reais para que eles permaneçam, a percepção foi mudando, e o uso da data também. O capitalismo tenta de alguma forma se apoderar da data como se fosse um dia para presentear, instigam o aquecimento do comércio, os galanteios e parabenizações. Mas o que de fato representará o dia internacional da mulher se os motivos da data não forem ditos? Será mais um dia para falar que mulheres são especiais por que fazem muitas coisas ao mesmo tempo? Como se isto fosse de fato agradável para elas, anulando mais uma vez o desejo de cada uma, ou a possibilidade de respirar e decidir o que se quer. 

 Mulheres são cercadas por todos os lados, ensinadas a servir e agradecer, rodeadas por muitos limites que vão desde questões sociais, exploração de nossa mão de obra, repressão, violência, objetificação sexual, entre outros. Tentam nos fazer acreditar que é bom receber flores e presentes, e que somos mau educadas quando não sorrimos por presentes que tentam comprar o nosso silêncio. Nos chamam de histéricas e nos fazem gritar para sermos ouvidas, tocam em nosso corpo como se fosse algo a servi-los, nos fazem acreditar em vulnerabilidade, quando eles é que são violentos. 

O dia 8 de março é a materialização de que nada está bom, e é preciso refletir e reconhecer privilégios, primeiramente entre as mulheres quando falamos de raça, e classe, e por parte dos homens em enxergar as mulheres como seres capazes e pensantes sem precisar ser uma extensão deles. As mulheres devem ser tratadas de forma educada e respeitosa não porque são da sua família, ou fazem algo para você, mas porque são seres humanos, simples assim.

Não há problemas em presentear uma mulher no dia 8 de março, ou em qualquer outro dia. É fato que muitas continuam a carregar muitos fardos, alguns até desconhecidos da maioria, quanto mais histórias sabemos, mais fica difícil ignorar o que acontece com as mulheres em todos os espaços que ocupam. Merecemos muitos presentes, e queremos todos eles, no entanto precisamos de colaboração prática na luta, e que não tentem nos explicar aquilo que vivemos todos os dias, ouçam um pouco mais, e parem de tentar nos fazer inferiores, pois não somos. 

Nunca foi a intenção do movimento que fundou a data do dia 8 de março como o dia internacional da mulher aquecer o comércio, ou se fazer merecer presentes por ser alguém que "faz tudo" aguentar porque é "guerreira". Queremos descanso, divisão de tarefas, finalizar relacionamentos e continuarmos vivas, também não seria mal andar a noite pelas ruas sem sentir medo, tomar um porre sem pensar em estupro, não sofrer violências, assédios, depreciação... etc. Enfim, ser livre!

O fato de ser guerreira é o que nos carrega para a luta exigir liberdade real, possibilidades que torne as nossas diferenças respeitadas, e que os direitos respeitem isso. Presentes são bem vindos, mas ler este texto e pensar no assunto é o que precisamos de verdade. 

Parabéns a todas as mulheres. 8 de Março. 

Repassem o texto, a mudança somos nós. 

Texto: Grazy Nazario. 




quinta-feira, 25 de abril de 2019

Precisamos falar sobre a Reforma da Previdência


O assunto previdência social à primeira vista soa como algo complicado e muito chato, porém passada esta primeira impressão vemos que ele é complexo sim, confuso talvez, mas não tem nada de chato. Aliás, me arrisco a dizer que este assunto deveria ser tão comentado quanto a final do campeonato de futebol da sua cidade, mas nem Corinthians, Flamengo, Grêmio ou qualquer outro time do planeta merecem atenção como aquilo que transforma diretamente a nossa vida. A previdência é a realidade de um futuro próximo, tipo amanhã, é o dia a dia de verdade, não se engane ao pensar que o futuro não chega, e o tempo não passa, ele corre!

 Quanto tempo se passou desde que você estudava no ensino médio? Parecia que o tempo não ia passar, não é mesmo? Lembre-se que iremos envelhecer, parafraseando Belchior, “Como os nossos pais”.

Gritar é “campeão” é maravilhoso, mas garantir os nossos direitos mínimos como trabalhadores nos possibilita continuar torcendo com saúde, dignidade e em vida. Alguns assuntos vistos como não tão agradáveis faz parte das batalhas da vida, e merecemos viver bem. A nossa vida financeira é ultra importante e deve ser tratada como prioridade, afinal, infelizmente a nossa juventude e disposição para o trabalho não serão eternas, muito menos o mercado de trabalho estará aberto para pessoas com qualquer capacidade reduzida. A cada dia a selva capitalista se torna mais selvagem, e precisamos cuidar uns dos outros.

A previdência social é uma conquista antiga dos trabalhadores, e a sua função não deve ser de “lucrar”, e sim “cuidar” dos contribuintes. Somos todos nós juntos, cada um em sua área com a sua mão de obra que “sustenta” toda a produção e serviços do país. Não se trata apenas de aposentadoria, também de cuidados gerais, como doença ou acidente, nestes casos, este fundo de reserva irá garantir que continuemos a viver dignamente.

Entre algumas situações sugeridas nesta reforma está o calculo de tempo e idade praticamente impossíveis de serem alcançados, sem contar que para aqueles que cumprirem as novas exigências e se aposentar, receberão 60% do seu salario. É a combinação de 62 anos (mulheres), 65 (homens) e contribuição (sem falhas) de árduos 40 anos para não receber o valor do seu salario integral. Dá pra acreditar?

Claro que é tentador ignorar que estamos sendo atropelados por políticas vergonhosas que não se importam com as necessidades do povo, dói menos não participar de alguns assuntos para não se sentir responsável pelos resultados. Mas até quando iremos fechar os olhos para o que nos prejudica? Vamos pensar que, a fatura do seu cartão esta vencendo, você sabe que não vai conseguir pagar o valor total, mas vai deixando, ignora a divida, finge que não é com você, e o tempo passa. O cartão fica com uma divida impagável, e pode se passar um, dois ou dez anos, de algum jeito você pagará por ela. O momento pede para agirmos como verdadeiros patriotas, e nos preocupar com o desenvolvimento do país e de sua própria condição de vida.  

Não dá para ignorar o que está acontecendo, e permitir que aprovem este desmonte de direitos, como se fosse correto mudar leis para burlar direitos. Políticos são eleitos pelo povo para trabalhar para o povo. Não finja que não é da sua conta, é o pãozinho de cada dia sendo tirado da nossa mesa.

Brasileiros e brasileiras, o nosso espaço de fala é com o nosso colega de trabalho, familiares e amigos, este país é nosso! Converse sobre isso, se informe, compare países que mudaram para este tipo de previdência e veja como está a população após poucos anos de reforma. O Chile, por exemplo, que sofreu uma reforma parecida conta com altos índices de idosos suicidas, ninguém quer viver a míngua depois de trabalhar uma vida inteira. Pesquise sobre a reforma, e entenda porque estão escondendo o valor do tal rombo da previdência. O conhecimento é a nossa melhor arma. Resistiremos!

Realizar uma reforma significa ajustar o que já existe conforme as mudanças que inevitavelmente acontecem, sejam mudanças sociais, financeiras entre outras. Isto é compreensível e aceitável, desde que respeite as pessoas, as necessidades de trabalhadores e trabalhadoras sem os tratar como maquinas. É preciso avaliar a real expectativa de vida e saúde desses contribuintes, considerando todos os aspectos de trabalho que exercem.

 A reforma da previdência como apresentada hoje é uma tentativa de impossibilitar as pessoas de se aposentar, ou ter qualquer proteção como trabalhador. Se você é trabalhador abra os olhos, a pressão popular é a única arma para nos defender da manipulação daqueles que continuam a enganar o povo. Se você é empresário, seja humano! A degradação dos trabalhadores e trabalhadoras não pode ser vista como beneficio em nenhuma hipótese.

Deixo aqui alguns links sobre os dados citados no texto acima, com a função de facilitar a informação e compartilhar estudos sobre o assunto. Também é possível simular o seu tempo de aposentadoria para qualquer pessoa por tempo e idade para uma simulação real, o resultado é assustador.


Texto por: Bell Braga.

Calculadora da Reforma da Previdência.

Links sobre a proposta de reforma.









terça-feira, 3 de janeiro de 2017

A verdade pode ser negada, as consequências não.

  Criminoso de Campinas não agiu sozinho, existe um sistema que cria e apóia condutas como esta. 

Nem mesmo o mais criativo dos escritores seria capaz de produzir algo perto do que fez o sujeito de Campinas, diante da chacina da cidade campinense as histórias fictícias que já escrevi contendo violência física, verbal, ou emocional contra as mulheres são bobagens, coisa de amador, e é assim também que as autoridades conduzem atitudes anteriores a deste tipo de crime, até chegar a extremos como o massacre que aconteceu na noite de ano novo. Quando nos pronunciamos a favor de politicas publicas para as mulheres, chovem críticas, como se casos de feminícidio, ou seja, quando a causa do crime esta ligada a “Ser Mulher” fosse algo inventado, pura literatura ou contos imaginários, assim como alguns que eu já criei.

 A verdade é negada, ou tratada como algo sem importância, e os números que deveriam diminuir, na verdade só aumentam. A liberdade da mulher é muitas vezes enxergada como uma afronta a masculinidade, a sociedade apoia atitudes machistas que estimulam o comportamento de dominação e superioridade, mas não enxergam e não admitem isto, justificam através de conceitos morais violentos contra as escolhas das mulheres, desrespeitam suas vontades, sua evolução como ser humano, e a tratam como um ser incapaz de fazer as suas próprias escolhas. Tentam a todo custo impedir que conduzam a própria vida como deseja, como se ela não soubesse como fazer, ou não devesse fazer isso.

Casos como este de Campinas acontecem com mais frequência do que são divulgados, não necessariamente  em uma chacina com esta repercussão, tendo como vitima também uma criança, filho do assassino, além do alto número de vitimas.  Mas igualmente matando a todos que estão por perto, culpando a todos que apoiam a mulher e colaboram para as suas escolhas. A misoginia é assustadora, esta no dia a dia, inserida como se fosse invisível, e quando vista é dita como "coisa de mulher louca ou frustrada", nunca coisa de homens com medo de responsabilidade e mimados, que não aprenderam a ouvir um NÃO.
   
Faz-se a cada dia mais necessário debater estes assuntos, mas ao invés disso falam em banir feministas, entender e exigir o real direito do ser humano é o maior crime, matar é aceitável. A conquista da liberdade real incomoda, não permitem, e não apenas as pessoas de forma individual por medo ou insegurança, mas tudo o que a organiza a sociedade, desde religião, linguística ou educação, a cultura enraizada na sociedade de que mulher é inferior ao homem é o que mata pessoas, e não feministas, ou seja lá a nomenclatura direcionada á pessoas que decidiram ser tratadas como gente. 

Em meio ao caos real que ainda insistem em fingir que não existe, mesmo diante das piores estatísticas de violência, estupros e maus tratos, a culpa é o eterno fardo feminino, ainda querem nos esconder sob a falsa afirmação de proteção, enquanto nos negam a proteção que apenas o respeito nos assegura. Ao contrário de outros exemplos de opressão, o machismo e a misoginia não são distinguidos por classes sociais, idade ou nacionalidade, mas estão espalhadas pelos quatro cantos do mundo, como algo natural, sem fronteiras, o gênero feminino é a porta para o sofrimento, é a nossa sentença de morte, e o passaporte do medo.

A batalha das mulheres é antiga e árdua, e os resultados mínimos diante do caminho já trilhado, e a ser percorrido, seria bom menos hipocrisia e mais atitudes por parte das autoridades, imprensa e a sociedade em todos os campos possíveis, não tentem nos fazer engolir e acreditar que são suficientes as migalhas que o sistema nos oferta com uma mão, e nos tira com duas, a igualdade esta distante de ser real.  

A luta pela independência feminina é muito mais que ter o direito de trabalhar e receber igual aos homens, ter a mesma responsabilidade com os filhos, ou decidir com autonomia sobre os assuntos referente ao próprio corpo. Queremos o direto de nos perceber e viver como um ser humano, e ter capacidade de compreender a nossa existência a partir de como enxergamos o mundo e a nós mesmas, e não ter  uma função designada por alguém, para facilitar pura e simplesmente a vida de outros tantos alguéns! O autor da chacina morreu junto a suas vitimas, covardemente se privou de qualquer punição judicial, agora já é tarde para qualquer medida preventiva, que foi negada pelos órgãos responsáveis. Quanto a medidas punitivas, é difícil imaginar qual punição seria suficiente para punir e amenizar o quadro de destruição deixado pelo assassino misógino e cruel.

 Estas foram mais vitimas do machismo, como existem inúmeras espalhadas, que não estampam as capas dos jornais,  mas estão no nosso circulo de amizades, na vizinhança, com a colega do trabalho, ou silenciosamente dentro da própria casa.  Da imprudência da justiça à cegueira conveniente da sociedade cômoda e desumana com suas “filhas” tão veneradas por motivos óbvios, e odiadas por permanecerem à frente da luta pelo direito de viver suas escolhas.

É preciso falar sobre este assunto todos os dias, com os nossos filhos, sobrinhos e alunos, parentes e amigos, é preciso existir punição real, e reconhecimento dos maléficos crimes a partir de questões de gênero. A sociedade não pode continuar a produzir monstros cheios de razões equivocadas e banhados de senso comum, com ensinamentos e aprovação sobre como controlar e ter poder sobre a vida que não lhe pertence. É urgente a necessidade de fazer desse caso um exemplo, e buscar lições de como evitar que comportamentos assim continuem a ser considerados plausíveis, e que menos mulheres sejam vitimas da decisão de serem humanas. 


Texto por: Grazy Nazario. 

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Cultura do Estupro

FEMINISMO - TCA 2016
"A ideia radical de que as mulheres são gente"
(Simone Beavoir)

Cultura do Estupro
Por: Sara Cavalari e Mariana Barbedo

Na década de 70, foi criado o grupo “Rape Culture” pelas feministas americanas, que significa “Cultura do Estupro”. A cultura do estupro em geral, é tudo aquilo que encoraja agressões sexuais masculinas, apoia e normaliza a violência contra a mulher. Em verdade, vivemos numa sociedade onde não é ensinado a não estuprar, mas sim, a não ser estuprada. 

A gente vê a cultura do estupro quando as pessoas tentam justificar um estupro, jogar a culpa na vitima, com justificativas como “mas ela estava usando uma roupa curta/provocante”, “ela usa drogas”, “se não estivesse na rua naquele horário nada disso teria acontecido”, “ela é mulher de traficante”, “ela gosta de sexo grupal”, “ela não é santa”.

A cultura do estupro faz com que esses argumentos validem uma recriminação da própria vitima, que naturalize a pratica do estupro e de outras formas de violência sexual, que começam desde cantadas na rua (com conotações sexuais), assédios físicos e/ou até ao mesmo estupro. Essa cultura convence a todos que estuprar, molestar e assediar, são atitudes naturais e se devem ou justificam pela postura das vitimas. A cultura do estupro está nas formas de piadas e gírias, nas musicas, na linguagem, nos programas televisivos como: séries, novelas, que banalizam o estupro, propagandas que retratam as mulheres como se todas estivessem disponíveis para o prazer dos homens, e isto está tão presente em nossas vidas que acabamos por achar normal.

Tudo isso colabora para a criação e manutenção do pensamento de que as mulheres são feitas para satisfazer as vontades sexuais dos homens. Este é o lugar designado às mulheres na nossa sociedade, o que contribui para que as pessoas pensem que o estupro é uma questão de sexo e sexualidade, uma miragem misógina que violenta tantas mulheres.


Trata-se de uma forma bárbara de violência, uma agressão brutal que invade o corpo de outra pessoa. Nada justifica um estupro. Vivemos numa sociedade patriarcal, sofremos violências derivadas desse elemento e, por acreditar que a cultura “não é uma santa no altar” e que ela pode e deve ser transformada, colocamo-nos na luta contra o machismo, em favor de uma sociedade humanamente melhor. A igualdade dos direitos formal não é o suficiente, pois apenas papeis não garantem vivência igualitária e justa. Estamos transformando nossa escola e nossas vidas. Avante!





Sara Cavalari tem 14 anos e é estudante da EMEF Sérgio Milliet localizada na zona leste de São Paulo. Mariana barbedo é sua professora e orientadora no projeto TCA (Trabalho Colaborativo Autoral), e é sua orientadora.  



quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Não existe idade para a luta, existem motivos

Supostamente na idade de “aceitar” o mundo como está e pouco dizer ou interferir, adolescentes usam o espaço escolar para além do raso significado determinado como um local de conteúdos a aprender. O espaço social e de educação formal é também usado como um ambiente de troca, de compreensão e de transformação social dentro e fora da escola.
Estas são as pessoas que também cuidarão deste planeta no futuro. Nada está perdido!

O grupo de estudantes da EMEF Eduardo Prado inicialmente poderia ser chamado de Grêmio. Seria normal dizer que jovens da escola que participam das atividades do conselho, opinam quanto as prioridades da escola, e representam as vontades dos seus colegas, seja denominado grêmio estudantil. No entanto, o grupo de predominância feminina dessa unidade escolar, se autointitula um grupo feminista, não foram escolhidas através de votos, mas se sentiram eleitas por necessidades maiores e de percepção geral. Além de praticar as atividades que também poderiam ser de responsabilidade de um grêmio estudantil, enfatizam a luta por igualdade entre os gêneros, e problematizam questões essenciais para que a convivência escolar aconteça de forma saudável.

O grupo principal é formado por cerca de trinta meninas, este é um numero expressivo diante da propriedade e do compromisso com que a turma trabalha as questões. A autonomia é visível desde a construção do grupo em divisões de tarefas e determinações gerais, até a fala de cada uma. É claro que existe a colaboração de um “adulto”, a presença e apoio do corpo docente é essencial quando falamos de espaços escolares. Neste caso, o professor Eduardo de língua portuguesa é o mediador e apoiador do projeto que carrega o nome MOVIFEMI, Movimento Feminista na Escola.  

Entre as motivações para a criação do grupo estão algumas situações incomodas, e que muitas delas notaram parecer irreversíveis, e dignas de intervenções. Segundo conta uma das meninas, a primeira batalha vencida foi o uso da calça legging durante a educação física. Embora pareça algo banal ou simples de resolver, a ideia de que elas não deveriam usar a peça para não gerar “desconforto” para os meninos era, no mínimo, ridícula e sem cabimento. Não existia desrespeito em usar uma roupa que facilita as atividades físicas, existe desrespeito quando não se pode fazer isso por que as outras pessoas não aprenderam a ter limites diante do corpo do outro. Naquele instante foi percebida uma troca de valores, antes não notada, e a partir daquilo nascia um grupo que se incomodaria com outras atitudes semelhantes.

Conversando com as meninas nota-se a liderança natural que elas possuem sobre as ideias e conceitos feministas, mas não apenas isso, também fica claro a preocupação com as minorias diante de qualquer natureza como racismo, homofobia, xenofobia, entre outras questões preconceituosas. A partir deste viés, o grupo se mostra eclético em personalidades, o que garante abordagens diferentes respeitando a personalidade de cada garota, e levando em consideração como cada pessoa se enxerga e encara a própria sexualidade.

Os assuntos discutidos pelo grupo são diversos, vão desde falta de produtos específicos para as meninas como absorventes, passando por roupas, comportamento e condutas machistas em geral. O ideal é que seja algo do cotidiano, acontecendo e atrapalhando de algum modo a  vida ou a liberdade delas, seja no espaço escolar, na internet, televisão, ou na rua, o importante é se incomodar com isso, e buscar soluções.


As duvidas são consideradas algo natural e enriquecedor no grupo, esta é outra característica forte nas meninas do MOVIFEMI, varias questões são levantadas pelas colegas e problematizadas primeiramente entre o grupo, e muitas vezes compartilhadas em sala de aula. O importante é não deixar dúvidas, buscar fontes de pesquisas, e neste momento, mais uma vez o professor é um aliado e contribuinte.




Um dos trabalhos realizados pelo grupo


A organização é outro componente que acrescenta qualidade, o grupo MOVIFEMI se divide para falar com as turmas, a liderança é algo distante, pois o grupo se transparece em respeito mutuo de ideias e conceitos. Uma das integrantes é presidente do conselho da escola, e a sua fala transborda segurança quanto aos próprios direitos. A mesma percepção se espalha pelas outras integrantes, umas mais tímidas, outras mais falantes, mas todas em prol do mesmo objetivo.
As atividades não param em discursos ou reuniões no conselho da escola, as meninas criam cartazes sobre o tema, poesias, textos, entre outros, além de participarem das redes sociais  também fazem intercambio em outras Unidades Escolares, afinal o assunto não é novidade e esta a cada dia mais em alta. Produziram um manifesto (que estará disponível no final da matéria), assim como os endereços eletrônicos.

As meninas Beatriz Cavalcanti, Beatriz dos Santos, Brenda, Bruna, Gabrielly, Giovanna, Isabela, Larissa, Marcela, Mayza, Renata, Poliana, e Thais, Junto ao professor Eduardo estiveram durante o nosso bate papo que não apenas rendeu esta matéria, mas também uma gigantesca troca de conhecimento. O grupo não se encerra entre elas, existem outras pessoas da escola e de períodos diferentes que também são engajadas, e que se reúnem diante de qualquer necessidade, inclusive com a participação de meninos (mesmo em minoria), a voz e ouvido dos meninos é também considerado importante para melhores resultados.

Diante de atitudes como a do MOVIFEMI fica mais perto do real acreditar na mudança das pessoas e nas melhorias da humanidade, toda força coletiva possui melhores resultados, e tudo aquilo que é feito com qualidade e compromisso alcança os seus objetivos. Muitas meninas estão no seu ultimo ano na EMEF Eduardo Prado, mas já se preocupam com a continuação do MOVIFEMI portas adentro da escola, pois já sabem das dificuldades de se manter conquistas diante de uma verdade cultural diferente, a luta acontece todos os dias para alcançar e manter direitos.

Esta claro que a escola não é apenas um espaço de conteúdos, mas de grandes aprendizados sociais, está nela a base de qualquer construção social, é dentro dos muros das escolas que aquilo que conhecemos fora se inicia. Que a semente da igualdade se espalhe, a cada dia é preciso maior consciência diante dessa realidade. 

Texto: Grazy Nazario.
MTB. 74588/SP

Manifesto elaborado pelo MOVIFEMI

Manifesto em defesa de uma escola sem preconceito e discriminação

Mediante reunião realizada no inicio de abril de 2015 com pauta relacionada a situações de preconceitos, observados tanto dentro quanto fora da escola, verificou-se a necessidade de construir espaços de debates, formação e organização de combate aos diferentes preconceitos e discriminações decorrentes em nossa sociedade.

1 – Não tolerar nenhum tipo de opressão relacionada a discriminações raciais, homofóbicas e machistas no interior da escola. Com orientações especificas de como atuar em situações do tipo.

2- Estabelecer um coletivo de formação permanente visando conscientizar o coletivo da escola com o objetivo de superar as situações de discriminação.

3 – Encaminhar debates para que esta pauta integre todos os documentos oficiais da escola: Projeto Político Pedagógico e Regras de Convivência.

São Paulo, 28 de Maio de 2015.




*A unidade escolar EMEF Eduardo Prado é uma escola Municipal de São Paulo, pertence ao colegiado da Diretoria Regional de Educação Itaquera. Agradecimentos ao Diretor da Escola Sidney Aparecido da Silva, e ao Professor Eduardo que gentilmente cederam o espaço e nos convidaram a conhecer o grupo, e também as meninas que contribuíram com seus relatos.






terça-feira, 12 de julho de 2016

Mulheres na Política



Pensar em mulheres na politica ainda assusta, inclusive as próprias mulheres. Quando pensamos nas mulheres decidindo e pensando o que é realmente importante para a sociedade, é como se algo dissesse “ela não sabe o que esta fazendo”. As pessoas foram ensinadas a acreditar que apenas os homens possuem esta capacidade, e mesmo sabendo que isto não é verdade, a insegurança é implantada em cada uma das mulheres e reforçada a cada dia por homens igualmente inseguros. Mas a cultura diz que ele é capaz, que sabe e precisa fazer isto, se errar aprenderá com os erros, tudo esta em suas mãos. Isto vem acompanhado de um medo imensurável daquilo que elas podem fazer quando realmente se descobrem, e aprendem a usufruir daquilo que sempre fora ofertado aos homens, a liberdade do pensamento.

Diante da realidade política brasileira e mundial não é preciso falar em estatísticas, basta olhar o cenário politico, nos Municípios, Estados e no âmbito Federal. A diferença é vergonhosa, e as mulheres que conseguem se inserir na politica, através de muito apoio e trabalho, sentem dificuldades em fazer acontecer os seus projetos. Além das dificuldades comuns para todas as pessoas no campo político, existe algo a mais, ela é mulher.

Não existe empatia ou simpatia em relação as mulheres, quando você mostra competência eles te invejam, e sempre tentam de algum modo diminuir o seu feito, já que não foi ele quem fez. E quando algo se fundamenta como errado ou ruim é o fim do mundo em proporções gigantescas. É claro que isto também acontece em relação a outros homens, a competição sempre existiu, mas em relação a mulher cria-se uma espécie de sentimento de inferioridade, já que fomos, mesmo sem pedir, submetidos a ideologia de superioridade por parte dos homens. Sem contar o assédio, muitos homens realmente acreditam que as mulheres devem estar ali para “divertir” o lugar, e não trabalhar, ou quem sabe manter o ambiente higienizado para que eles façam o trabalho que lhes cabem com mais tranquilidade.

 A saída da presidenta do Brasil tem muito a ver com o machismo nosso de cada dia, mesmo que alguns demagogos digam que não, isto é muito óbvio, e eu ficaria aqui listando os milhares de motivos dessa verdade. A começar por decisões diferenciadas de seu antecessor, esta é uma das provas de que a sua politica é sim diferente, a sua objetividade não agrada aos velhos conservadores acostumados com a objetificação feminina, o que elas querem mesmo é trabalhar, mostrar serviço,  estão há séculos e séculos atrasadas na arte de decidir e criar. O desespero dos conservadores esta em perceber a rasa experiência e imensa competência e vitalidade das mulheres. O medo de que ouçam a sua voz é assustador.

Mesmo com as decisões femininas colocadas à prova ainda antes de serem escritas no papel, é como se o erro fosse inadmissível e o acerto não existisse, ela ainda permanece, cresce e conquista o seu espaço. Mesmo reconhecendo o fato de por muito tempo serem completamente excluídas das experiências que ultrapassasse o “ser mãe e dona de casa”, ela conseguiu se superar e, como todo ser humano buscar o seu lugar ao sol. Aprende a cada dia a decidir a partir daquilo que acredita, pois tem capacidade de pensar, agir e praticar escolhas.

As mulheres podem estar na politica de varias maneiras, se informando, discutindo ou se inteirando de assuntos sobre as necessidades do seu país, estado, cidade ou bairro, cada uma em sua dimensão e conhecimento conquista e mantém a sua verdade e expressão. Decidem e se redescobrem, se enxergam como algo além de Bela, recatada e do Lar.

Não precisam mais estar por detrás de um grande homem para ser uma grande mulher. Ela é uma grande mulher sozinha ou acompanhada. A busca das mulheres na politica esta em perceber as necessidades das pessoas a partir de sua sensibilidade, e conquista-las com sua força, reconhecer a sua capacidade ímpar, e caminhar ao lado daqueles que contribuem e respeitem esta realidade de forma natural.  

Mulheres na politica não esperam por privilégios, nem castigos, o justo contenta.  

Texto: Grazy Nazario.

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